31 julho 2026

A Cerveja, a Ursa e o Continente





Texto desavergonhamente copiado de Milton Marques Junior em www.carlosromero.com.br




Qual a relação entre uma cerveja, uma ursa e um continente? O leitor pode estranhar a pergunta, mas estou me referindo à Antárctica, cujo nome envolve estes três elementos tão díspares. E, se o continente é Antárctica, por que o chamamos de Antártida? Vamos por partes.

O antigo rótulo da cerveja Antarctica, assim mesmo, sem acento e com “c”, pelo menos aquele que eu alcancei, apresentava-se com dois pinguins dentro de uma elipse, tendo sob os pés ramos de cevada. A logomarca nos remetia ao cereal de que a cerveja era feita, além de induzir o consumidor a pensar num produto para ser consumido gelado. Sendo os pinguins animais que habitam as regiões muito frias, como a Antárctica, tida como o continente mais frio da terra, localizado no Círculo Polar Antárctico, o nome da cerveja revela-se, portanto, diretamente ligado ao continente e suas condições ambientais.

Se o nome da cerveja é devido ao nome do continente, porque a cerveja não é Antártida, como costuma ser chamado por aqui? Primeiro, vamos esclarecer o nome original. Chama-se Antárctica porque ele se localiza no ponto contrário ao Árctico, situando-se ambos nos polos — O círculo polar ártico e o círculo polar antártico, numa grafia menos etimológica.


O Ártico (pelo latim arctĭcus, do grego ἀρκιτκός) recebe esse nome por estar situado no Norte. A relação entre Arctico e norte se dá por causa das constelações da Ursa Maior e da Ursa Menor, que, por sua posição sempre ao norte, serviram de orientação aos navegantes e viajantes em geral. A diferença que existe entre ambas reside no fato de que apenas a Ursa Maior pode ser vista no hemisfério sul, onde nos encontramos. Daqui, não podemos ver a Ursa Menor, cuja estrela mais brilhante é a Polaris, que permanece fixa sobre o polo norte celestial, parecendo que as demais estrelas giram ao seu redor.


A etimologia de Árctico aponta para Arktos (ἄρκτος), cujo significado em grego, urso/a, nomeia as constelações. O termo está vinculado ao mito de Calisto, jovem sacerdotisa do séquito de Diana. Júpiter se enamora dela e engendra o jovem Arcas. Diana a expulsa do seu culto e Juno, enciumada com os amores furtivos do marido, a transforma em uma ursa. O jovem Arcas cresce e torna-se caçador, quase matando a mãe, quando com ela se depara, sem tê-la reconhecido na sua forma animal. Júpiter arrebata ambos e os transforma em constelações vizinhas no céu (Ovídio, Metamorfoses, Livro II, versos 401-530). Arcas recebe o nome de Arcturo (ἀρκτοῦρος), estrela alfa da constelação do Boieiro, cujo nome, em grego, significa o guardião da Ursa, perfeitamente avistada aqui, no hemisfério sul. A mãe, vigiada pelo filho, para impedi-la de banhar-se nas águas de Thétis, o mar, ordem de Juno, será a constelação da Ursa Maior. Agora, já podemos deduzir o significado de Antárctico: o que está no sentido oposto ao Árctico, sendo este o polo norte e aquele o polo sul.


Quanto à preferência pela forma Antártida em lugar de Antárctica, a explicação vem através da famosa lei fonética do menor esforço, responsável por acomodações fonéticas que tornam mais fácil a prolação. Pronunciar Antárctica ou Antártica é muito difícil. A dificuldade reside no encontro entre três fonemas velares "r", "c"(ct), "c" e um fonema dental "t".

. Na realidade, a forma latina Antarctica, emprestada ao grego ἀρκιτκός, encontra-se esmagada entre dois "c". Essa articulação é dificultada pelo recuo da língua, que as velares "c" e "r" exigem (antarc—), para, em seguida, a ponta da língua alongar-se em direção aos incisivos centrais, permitindo a articulação da ápico-dental "t" (ti), para, ainda uma vez, a língua recuar, na prolação da sílaba final (ca): antárctica.

A facilitação da pronúncia ocorre quando um fonema dental, como o "t", encontra outro dental, como o "d". Estes dois fonemas, "t" e "d", são gêmeos, tecnicamente chamados homorgânicos, possuindo o mesmo ponto de articulação: eles são oclusivos e ápico-dentais, o que significa que, no momento da articulação, há um fechamento da boca e a ponta da língua toca os dentes incisivos centrais, para que haja a prolação. A única diferença entre eles é que o "t" é um fonema surdo e o "d" é sonoro. O que determina ser surdo ou sonoro é a vibração das cordas vocais ou pregas vocais, no momento da passagem do ar.

O resultado da lei do menor esforço é a queda do primeiro "c", num fenômeno chamado síncope, por ele ter-se tornado mudo na passagem do latim para o português, e a assimilação com sonorização do segundo "c" em "d", exigida pelo seu “irmão gêmeo” "t":


Por outro lado, ártico nunca vai dar ártido, pois a articulação naquela palavra é mais fácil. O que determinou a transformação de Antártica em Antártida foi a pressão dos dois "t" sobre o "c". Ressalte-se que a lei do menor esforço não é ditada por gramáticos ou linguistas, mas uma lei natural, decorrente da necessidade de nosso cérebro de economizar energia, e que impõe à língua movimentação e expansão, tendo em vista tratar-se a língua de um corpo vivo.

Agora, vamos e convenhamos: deixando de lado toda a conversa técnica sobre os termos, uma cerveja gelada passando pela ponta da língua, tocando o véu palatino e aguando grande parte da cavidade supraglótica, que vulgarmente chamamos boca, é gostosa ou não é?

Autor: Milton Marques Junior: Professor Titular aposentado do Curso de Letras Clássicas da UFPB. Mestre e Doutor em Letras da UFPB. Membro da Academia Paraibana de Letras. Autor de mais de vinte livros publicados – Instagram @marquesjr45

11 julho 2026

A Malzbier Brasileira Não é Cerveja





Imagem e texto Paulo Antunes Júnior

  

Um pouco de história:


Em 1744, Johannes Ruf e sua esposa construíram a cervejaria Zum Römischen Kaiser em Seligenstadt, que ainda hoje é a sede da Glaabsbräu.
Em 1782, o filho Johann Georg Ruf foi alistado na Associação dos Cervejeiros de Seligenstadt.
Após sua morte em 1808, seu sobrinho Peter Josef Weidner II assumiu a pousada e a cervejaria, passando posteriormente para a família Wissel.
A família Wissel seguiu até 1891. Ferdinand Glaab, bisavô do atual Diretor Administrativo Robert Glaab, casou-se com Mariechen Wissel (Anna Maria Magdalena Sophia Glaab).
Em 1895, fechou a cervejaria Zum Römischen Kaiser e fundou a cervejaria Glaab & Thoma GmbH com seu irmão, Johann Thoma.
Seus filhos Ferdinand II e Jacob juntaram-se aos negócios da família em 1920.
Em 1920, após o cientista Fritz Lux, da Weihenstephan, conseguir obter vitamina B1 a partir de células de levedura, Ferdinand Glaab teve a ideia de criar um novo tipo de cerveja: a Malt Beer.
Em 1921, as duas cervejarias Glaab e Appelmann se fundiram para formar a Vereinigten Brauereien Seligenstadt.
Em 1931, a cervejaria adquiriu o processo patenteado de bebida de malte Vitamalz (que não pode ser vendido como cerveja) desenvolvido por Ferdinand Glaab I e Fritz Lux.
A cerveja não foi fabricada até 1931, porém, quando a cervejaria Seligenstadt comprou a receita patenteada da empresa Vitalux, deu-se início à produção da cerveja. A nova cerveja foi chamada de "Vitamalz".
Após a saída de Jakob Appelmann, Ferdinand Glaab I fundou com seus filhos a Glaabsbräu F. Glaab & Co.
Após sua morte em 1939, seus filhos assumiram a gestão da cervejaria.


Malzbier (Cerveja de malte):


A Malzbier tem suas origens na Alemanha, onde “Malzbier” significa “cerveja de malte”. é um tipo de cerveja, criada por Ferdinand Glaab, no final do século XIX.

A Malzbier tradicional é uma bebida composta por malte, água e lúpulo, sem passar pelo processo de fermentação. Essa combinação é uma alternativa para gestantes, crianças e pessoas que não fazem consumo de bebida alcoólica, doce e com baixo teor alcoólico (geralmente entre 0 e 4%), de cor escura, que é fermentada como uma cerveja normal, porém com a fermentação de levedo por volta do 0 °C.

Embora tenha a palavra “bier” no nome, o estilo lembra mais um híbrido entre cerveja e bebida maltada, com toques de caramelo, chocolate e melaço. Essa doçura característica vem do malte. Uma cerveja de malte à qual não foi adicionado açúcar e que pode conter 1,5% máximo de álcool tem esse título de cerveja corretamente. Vamos lembrar que a Lei da Pureza Alemã se aplica em princípio à produção de cerveja. O mandamento, que data de 1516, afirma que a cerveja pode consistir exclusivamente dos ingredientes água, lúpulo e cevada – caso contrário, não é cerveja.

As cervejas alemãs são classificadas de acordo com a gravidade original, termo mais conhecido pela sigla em inglês OG – Original Gravity. Por exemplo, uma cerveja tem OG de 12 °P, 120 gramas de extrato por 1.000 gramas de líquido:
Einfachbier (cerveja simples), com OG de 1,5 °P a 6,9 °P
Schankbier (cerveja de bar ou chope), com OG de 7,0 °P a 10,9 °P
Vollbier (cerveja completa), com OG de 11,0 °P a 15,9 °P
Starkbier (cerveja forte), com OG de 16 °P

Poucos sabem que a Malzbier (sem acréscimo de açúcar) é uma cerveja de verdade: essa Vollbier de alta fermentação tem um OG médio de 11,7 °P. Como a levedura é adicionada a 0 °C, a fermentação alcoólica é extremamente baixa, permitindo que a Malzbier seja considerada não alcoólica.

Já as cervejas especiais escuras, como Porter, Stout, Dunkel e outras, têm essa cor devido ao uso dos maltes tostados. Cada tosta vai dar uma coloração, aroma e sabores diferentes. Por exemplo: Malte Chocolate dá um aroma de caramelo queimado, chocolate amargo e café. Por isso, existem cervejas de chocolate, por exemplo, que, na maioria das vezes, não são feitas com o chocolate, mas com maltes que lembram o sabor e aroma de um. O Malte Escuro dá a coloração e o aroma de café torrado e a Cevada Torrada dá o tom amargo e intenso de café. Por isso, nem sempre o amargor vem só do lúpulo, ele pode vir, também, do malte.


Malztränk (Bebida de Malte):


Já as bebidas de malte são conhecidas por serem particularmente doces, com o açúcar sendo adicionado durante o processo de produção. Consequentemente, isso não está em conformidade com a Lei da Pureza, frequentemente é encontrada com outros nomes nas prateleiras dos supermercados, incluindo bebidas de malte.

Em decorrência da Lei da Pureza, quando há acréscimo de açúcar (e, na maioria das vezes, isso ocorre), não é possível chamar a bebida de cerveja (Bier). Por isso, ela recebe o nome de Malztränk e não Malzbier.

Basicamente, devido ao açúcar presente na bebida, não existem mais cervejas de malte de verdade. No entanto, o termo cerveja de malte tem se tornado cada vez mais popular nos últimos anos. Isso dá a impressão de que é uma cerveja, mas de fato, não tem nada a ver com uma cerveja de verdade.

A cor e o sabor adocicado não vêm da torrefação do malte, mas sim da adição de caramelo e xarope de açúcar ao final do processo de fabricação, podendo ser enriquecidas com outras substâncias, ingredientes ou, se necessário, aromas. Claro, isso tem como consequência que muito mais "sabor" e mais "variedade" entram na bebida, mas também faz com que ela se afaste ainda mais de uma cerveja clássica, nome do qual não deve ser chamada, o termo correto, em questão seria bebida de malte. Claro, a bebida clássica de malte tem água, malte de cevada e lúpulo (ou seus extratos, conhecidos como extrato de lúpulo), esse não podem faltar. Além do açúcar, frequentemente adicionado em forma de xaropes, também é adicionado ácido carbônico, que supostamente dá à bebida um sabor fresco ou refrescante. As seguintes substâncias também podem estar presentes na bebida de malte: Xarope de agave, concentrado de suco de maçã, Malte espeltado, Corante (E150c = cor caramelo de amônia), Aromatizantes naturais, Adoçantes (ciclamato de sódio, sucralose, acesulfame-K, sacarina de sódio, xarope de açúcar invertido, xarope de arroz).

Por causa dessa adição de xarope, algumas escolas cervejeiras não a consideram um estilo puro, ela não se enquadra em estilo nenhum, pois a adição de outros ingredientes para dar coloração à bebida e o uso abaixo de 20% de malte de cevada, a “desqualificam”. O Beer Judge Certification Program (BJCP) e a Brewers Association, organizações que catalogam os mais diversos tipos e estilos de cervejas, não a consideram como estilo próprio de cerveja. É considerada um tônico. São cervejas do tipo american pale lager nas quais, após a filtração, são adicionados caramelo e xarope de açúcar, dando a coloração escura (que não vem do malte tostado) e o sabor adocicado. Dizem inclusive que, antigamente, há alguns anos atrás, era produzida para reaproveitar a cerveja de início e fim da filtração e cervejas fora dos padrões. Hoje em dia isso não acontece mais e a cerveja ganhou um pouco em qualidade.

Quando a ideia chegou ao Brasil, por volta do início do século XX, a bebida passou por adaptações. A versão brasileira foi adaptada para se assemelhar ao sabor da versão alemã; a diferença é que a nossa passa pelo processo de fermentação completo, gerando, assim, uma bebida alcoólica.

Muito famosa no Brasil, não possui muitos correspondentes fora do país. Na Alemanha, seu país de origem, nem é mais considerada cerveja e sim, bebida energética. Enquadra-se normalmente no grupo de “outras cervejas com baixo teor alcoólico”.

A Malzbier brasileira, não é uma cerveja de malte na verdadeira acepção da palavra já que a Malzbier original não chega nem a 1% de álcool, pois, apesar de ser produzida como qualquer outra cerveja, ela quase não tem fermentação, a brasileira tem por volta de 4% de álcool, no Brasil, ela é produzida como uma cerveja normal, escura, alcoólica e frequentemente tem um sabor doce e maltado e é acrescida de várias substâncias. Acabou se tornando um tipo de cerveja e ficou popularmente conhecida como "cerveja preta doce ou Malzbier". Do seu início até os anos 30 foi comercializada como uma cerveja “fortificante”. Na época, acreditava-se que ela era altamente nutritiva e até recomendada como uma fonte de energia — especialmente por médicos e farmácias!

Quando se fala de cervejas doces e encorpadas no Brasil, é impossível não pensar na Malzbier. Amada por muitos e estranhada por outros, essa cerveja conquistou um espaço especial no coração dos brasileiros com seu sabor único, textura aveludada e um toque de nostalgia. Afinal, quem nunca ouviu a frase: “Isso aqui é praticamente um refrigerante!”

06 julho 2026

Você Sabe o Que é o Parágrafo Onze (§11)?





Imagem e texto Paulo Antunes Júnior



A resposta à pergunta do título deste post nos leva direto para as universidades da Alemanha do século XVIII.

O § 11, é um símbolo da tradição dos wandergesselen (fraternidades de ofício) e também do pessoal da Studenverbidungen (grêmios estudantis) vem do século 18, Esse parágrafo representa o espírito de confraternização, liberdade e união entre os artesãos durante sua jornada. Costuma ser mencionado em momentos de celebração, como encontros entre Wandergesellen, e reforça a importância da alegria e da camaradagem na vida nômade desses artesãos.

Não era uma lei do governo, mas sim a regra mais famosa do Allgemeiner deutscher Bier-Comment (comentário geral alemão sobre cerveja). É um manual satírico de conduta e etiqueta cervejeira criado por fraternidades estudantis alemãs. Ele é um livreto, que realmente surgiu nos cursos oferecidos nas várias universidades alemãs e prevalecendo nas várias corporações estudantis, ao voltar atras no tempo nos Kneip-Comment (comentários do pub), tanto quanto possível, checava todos cuidadosamente e comparava, resultando em um resultado crítico.

Obs. Se alguém preferir ler todo o texto do manual, segue o link: Allgemeiner deutscher Bier-Comment by A. Gerlach | Project Gutenberg. Ele tem umas sessenta páginas e o Google traduz fácil.

Enquanto os primeiros parágrafos eram deixados em branco (fazendo piada com as leis reais ou mandamentos religiosos), o parágrafo 11 decretava formalmente o início dos trabalhos: "Es wird fortgesoffen!" (em tradução livre: "A bebedeira deve continuar!" ou "Beba sem parar!") que significa simplesmente que você deve continuar bebendo ou ficar até que o barril de cerveja esteja vazio.

Era uma brincadeira jurídica que servia para anular qualquer desculpa para ir embora cedo ou parar de beber, apesar de seu tom bem-humorado, o parágrafo 11 carrega um valor tradicional forte e é parte da identidade cultural dos Wandergesellen. O parágrafo 11 na tradição dos Wandergesellen é uma parte simbólica e respeitada de seu conjunto de regras e costumes.

Quando os imigrantes alemães se estabeleceram no Sul do Brasil e fundaram as primeiras cervejarias artesanais e industriais da região, trouxeram essa forte identidade cultural. Batizar uma Cerveja Preta (estilo muito associado à energia e ao vigor na época) como "§ 11" era um aceno direto e bem-humorado à tradição, uma linguagem que os colonos e apreciadores locais entendiam perfeitamente.

Se você encontrar um rótulo antigo de cerveja preta do Rio Grande do Sul, como estas relíquias da antiga cervejaria Stahl & Rutzen (depois Rutzen & Cia. Ltda.), vindos do município de Santa Rosa, mais exatamente da Vila de Tres de Maio (Essa vila pertencia ao municipio de Santa Rosa e foi emancipada em 1954 como município com esse nome), há uma grande chance de se deparar com este símbolo em destaque: § 11 (Parágrafo Onze).

Esses rótulos da Rutzen preservam mais do que a história de uma bebida; eles guardam o humor, a memória gráfica e o choque cultural que moldaram a nossa cultura cervejeira brasileira.