Texto desavergonhamente copiado de Milton Marques Junior em www.carlosromero.com.br

Qual a relação entre uma cerveja, uma ursa e um continente? O leitor pode estranhar a pergunta, mas estou me referindo à Antárctica, cujo nome envolve estes três elementos tão díspares. E, se o continente é Antárctica, por que o chamamos de Antártida? Vamos por partes.
O antigo rótulo da cerveja Antarctica, assim mesmo, sem acento e com “c”, pelo menos aquele que eu alcancei, apresentava-se com dois pinguins dentro de uma elipse, tendo sob os pés ramos de cevada. A logomarca nos remetia ao cereal de que a cerveja era feita, além de induzir o consumidor a pensar num produto para ser consumido gelado. Sendo os pinguins animais que habitam as regiões muito frias, como a Antárctica, tida como o continente mais frio da terra, localizado no Círculo Polar Antárctico, o nome da cerveja revela-se, portanto, diretamente ligado ao continente e suas condições ambientais.
Se o nome da cerveja é devido ao nome do continente, porque a cerveja não é Antártida, como costuma ser chamado por aqui? Primeiro, vamos esclarecer o nome original. Chama-se Antárctica porque ele se localiza no ponto contrário ao Árctico, situando-se ambos nos polos — O círculo polar ártico e o círculo polar antártico, numa grafia menos etimológica.



. Na realidade, a forma latina Antarctica, emprestada ao grego ἀρκιτκός, encontra-se esmagada entre dois "c". Essa articulação é dificultada pelo recuo da língua, que as velares "c" e "r" exigem (antarc—), para, em seguida, a ponta da língua alongar-se em direção aos incisivos centrais, permitindo a articulação da ápico-dental "t" (ti), para, ainda uma vez, a língua recuar, na prolação da sílaba final (ca): antárctica.
A facilitação da pronúncia ocorre quando um fonema dental, como o "t", encontra outro dental, como o "d". Estes dois fonemas, "t" e "d", são gêmeos, tecnicamente chamados homorgânicos, possuindo o mesmo ponto de articulação: eles são oclusivos e ápico-dentais, o que significa que, no momento da articulação, há um fechamento da boca e a ponta da língua toca os dentes incisivos centrais, para que haja a prolação. A única diferença entre eles é que o "t" é um fonema surdo e o "d" é sonoro. O que determina ser surdo ou sonoro é a vibração das cordas vocais ou pregas vocais, no momento da passagem do ar.
O resultado da lei do menor esforço é a queda do primeiro "c", num fenômeno chamado síncope, por ele ter-se tornado mudo na passagem do latim para o português, e a assimilação com sonorização do segundo "c" em "d", exigida pelo seu “irmão gêmeo” "t":

Agora, vamos e convenhamos: deixando de lado toda a conversa técnica sobre os termos, uma cerveja gelada passando pela ponta da língua, tocando o véu palatino e aguando grande parte da cavidade supraglótica, que vulgarmente chamamos boca, é gostosa ou não é?
Autor: Milton Marques Junior: Professor Titular aposentado do Curso de Letras Clássicas da UFPB. Mestre e Doutor em Letras da UFPB. Membro da Academia Paraibana de Letras. Autor de mais de vinte livros publicados – Instagram @marquesjr45
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