terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Lei Seca






A cerveja pode parecer tão americana quanto o beisebol, mas isso nem sempre foi verdade: as destiladas, o rum e o uísque, eram as bebidas preferidas na década de 1840, as fermentadas apenas algumas cervejarias. Quando uma onda de imigrantes alemães chegou em meados do século XIX, eles prontamente começaram a recriar os prazeres do biergartens que tinham deixado para trás.

Apenas cinquenta anos depois, a cerveja lager de estilo americano que eles inventaram era a bebida mais popular do país. A fabricação de cerveja era a quinta maior indústria do país, governado pelos titãs fabulosamente ricos Frederick Pabst e Adolphus Busch. Mas quando os sentimentos antialemães despertados pela Primeira Guerra Mundial alimentaram as chamas do movimento de temperança, um dos ativistas chegou a declarar que “o pior de todos os nossos inimigos alemães são Pabst, Schlitz, Blatz, e Miller,” a Lei Seca foi o resultado.

Após a década de 1850, à medida em que os movimentos pró-temperança ou antialcoólicos foram ganhando força, a Woman’s Christian Temperance Union (União Cristã de Temperança Feminina – WCTU) se tornou a maior organização de mulheres do seu tempo, chegando a ter mais de 345 mil membros.


É no campo da ação confrontacional direta que encontramos a personagem mais famosa da WCTU: Caroline Amelia Nation ou Carrie Nation, como era mais conhecida. A morte do seu marido devido ao alcoolismo em 1869, a levou a um ativismo apaixonado contra a venda de álcool. Chegando a dirigir a filial local da WCTU na cidade de Medicine Lodge, no estado do Kansas.

A princípio, ela fazia protestos pacíficos em bares, cantando hinos religiosos sozinha ou acompanhada de outras mulheres. Insatisfeita com os resultados, passou a adotar métodos mais violentos. Em 7 de junho de 1900 destruiu a pedradas o estoque de bebidas de um saloon. Repetindo o ato nos meses seguintes, em saloons por todo o Kansas. Até que um dia o seu segundo marido falou em tom de brincadeira que ela deveria usar uma machadinha para causar mais dano. A resposta de Nation foi simplesmente: “Essa é a coisa mais sensata que você disse desde que me casei com você.”

Passou a invadir os estabelecimentos armada de uma machadinha para quebrar acessórios e o estoque de bebidas. O que lhe valeu o apelido de Hatchet Granny (Vovó Machadinha). Entre 1900 e 1910, Nation foi presa mais de 32 vezes por ação violenta e dano criminoso.

O Nobre Experimento ou a Lei Seca, ou ainda, a 18ª Emenda, entrou em vigor em 17 de janeiro de 1920, juntamente com a Lei Volstead que a regulamentava (batizada em homenagem ao congressista proibicionista Andrew Volstead) e definindo bebidas alcoólicas como todas aquelas com mais de 0,5% ABV, proibindo a fabricação, venda ou transporte de licores embriagantes dentro dos Estados Unidos e de todos os territórios submetidos à sua jurisdição, bem como a sua importação para os mesmos:
“Nenhuma pessoa deverá, na data ou após a data em que a décima oitava emenda à Constituição dos Estados Unidos entrar em vigor, fabricar, vender, trocar, transportar, importar, exportar, entregar, fornecer ou possuir qualquer bebida alcoólica, exceto conforme autorizado nesta Lei, e todas as disposições desta devem ser liberalmente interpretadas para o fim de que o uso de bebida alcoólica como bebida possa ser evitado”.


A lei seca, que vigorou nos Estados Unidos de 1920 até 1933 tirou do mercado muitas cervejarias. Das mais de 1.300 cervejarias em operação em 1915, não mais do que 100 sobreviveram. Já pensou se o produto ou serviço de sua empresa fosse proibido da noite para o dia? O que as poucas empresas que sobreviveram a essa lei fizeram?

No início da Lei Seca, muitas cervejarias optaram por fazer cervejas sem álcool. Mas o mercado americano não aceitou bem essa inovação. Os consumidores queriam cerveja de verdade. E quando a proliferação de contrabandistas e bares clandestinos tornou fácil o acesso a cervejas verdadeiras, o mercado de cerveja sem álcool afundou. Por outro lado, muitas cervejarias esperavam que a Lei Seca durasse pouco tempo. Mas a vigência da lei durou 13 anos. Quem ficou esperando a lei ser extinta para agir simplesmente foi extinto.

Os bares clandestinos, escondidos e com acesso restrito eram conhecidos por “speakeasy”, algo como “fale baixo”, já que naquele tempo não era permitido aos estabelecimentos a venda de bebidas alcoólicas.

A Anheuser-Busch vendeu metade de seus ativos imobiliários e lançou mais de 25 produtos sem álcool para poder sobreviver. Isso incluía produtos infantis, ovos congelados e produtos de café e chá carbonatados.

Durante a vigência da Lei Seca, a cervejaria Coors também investiu em um laboratório de cerâmica e olaria que havia adquirido alguns anos antes. A Coors Porcelain Company aproveitou a argila do Estado do Colorado para fazer de louças a velas de ignição, passando por utensílios de laboratório. Essa empresa de porcelana hoje é conhecida como CoorsTek. Ela é hoje a maior empresa de cerâmicas de engenharia do mundo.

A Miller Brewing Company conseguiu sobreviver em grande parte devido aos seus investimentos em participações imobiliárias. Antes da Lei Seca, a Miller possuía bares nos quais distribuía sua cerveja. A empresa vendeu alguns desses imóveis lucrou com seus investimentos em títulos municipais e internacionais, empréstimos hipotecários e títulos do governo para poder sobreviver.

A Pabst Brewing Company sobreviveu vendendo xarope de malte, comprando uma empresa de refrigerantes e alugando parte de seu espaço de fábrica para a Harley-Davidson, fabricante de motocicletas. A cervejaria também diversificou seu portfólio de produtos. Passou a fabricar pasta de queijo que era envelhecida nas adegas de gelo da cervejaria. Após a revogação da Lei Seca, a Pabst vendeu a linha de queijos para a Kraft.

A D.G. Yuengling & Son sobreviveu por meio da produção de cerveja sem álcool e sorvetes. Logo após a promulgação da Lei Seca, a empresa abriu uma leiteria e começou a fazer sorvetes que eram armazenados em suas instalações de refrigeração.

É obvio que, quando a lei seca foi banida em 1933, as cervejarias que sobreviveram encontraram pouca concorrência no mercado norte americano. E isso as fez prosperar.

Todas essas empresas sobreviveram porque foram capazes de selecionar os projetos certos e de desenvolvê-los a tempo. As empresas que desapareceram não fizeram isso.

Durante o século XIX e o início do século XX, o movimento da temperança se tornou proeminente em muitos países, particularmente nos de língua inglesa, escandinavos e protestantes majoritários, e eventualmente levou a proibições nacionais no Canadá (1918 a 1920), Noruega (somente bebidas destiladas de 1919 a 1926), Bélgica (1919), Finlândia (1919 a 1932), bem como proibições provinciais como na Índia (1948 até o presente).

Movimentos “pró-temperança” existiram também no Brasil, nessa mesma época. Mas, como explica Teresa Cristina de Novaes Marques, No Brasil, esses movimentos tinham um forte caráter elitista, vinculando alcoolismo a pobreza, elegendo como alvo principal as classes populares e o seu hábito de beber cachaça. Como você já pode imaginar, essa condenação afetava particularmente a população negra.

A cerveja, por sua vez, gerava controvérsias. De um lado, os seus defensores argumentavam que ela passava por rígidos mecanismos de controle na sua produção e tinha qualidades alimentares e até mesmo medicinais.

Um detalhe importante é que essa argumentação se restringia às cervejas de baixa fermentação (“industriais”). Não incluindo as cervejas de alta fermentação (ditas “artesanais”). Os defensores da proibição total, por outro lado, argumentavam que a cerveja podia ser a porta de entrada para o consumo de bebidas mais fortes, que levariam à dependência irreversível. E condenavam a associação entre cerveja e alimento.

Porém, diante do perigo representado pelo consumo de bebidas destiladas de maior teor alcoólico, como a cachaça, pelas classes populares, a cerveja acabou sendo vista como um mal menor. Dessa forma, ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, aqui os movimentos pró-temperança podem ter colaborado para fazer da cerveja a bebida preferida dos brasileiros.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Cenosilicafobia, medo de copo vazio






Eu tenho absoluta certeza de que você tem um parente ou conhece alguém que nas festas, nas reuniões familiares, naqueles churrascos ou até nas conversas em bares, tem o hábito de ficar interrompendo os bons papos e ficar enchendo os copos constantemente, aquele que participa bem pouco dos assuntos, só não pode ver o fundo do copo, seja seu ou dos outros.

Cenosilicafobia pode até soar como um palavrão complicado, mas o significado é bem mais divertido do que parece. A palavra descreve um termo curioso que ganhou espaço justamente pela forma bem-humorada, do medo irracional de ver copos vazios, em especial de bebidas alcóolicas como a cerveja.

Embora não seja uma fobia médica reconhecida, a cenosilicafobia é uma fobia praticamente desconhecida, mas que pode aparecer nos consumidores de bebidas alcóolicas. Basicamente, essa fobia é caracterizada pelo medo de ver copos vazios, criando reações irracionais no indivíduo, também conhecida como azelicofobia ou senosílicafobia. Descreve perfeitamente o sentimento de quem não gosta de ver o copo vazio, sendo usada para descrever o desejo de manter a bebida fluindo.

Pessoas com essa fobia sentem grande desconforto ao ver o fundo do copo, podendo buscar enchê-lo rapidamente para aliviar a ansiedade, e em casos mais extremos, pode estar ligada a comportamentos de alcoolismo, embora seja mais uma expressão popular do que uma fobia clínica formal.

Essa fobia é comum e pode ser percebida em eventos sociais ou bares, com bebida alcoólica, em que a pessoa enche seu copo e o dos outros constantemente. Não ficando em nenhum momento com ele vazio. O sintoma principal é a urgência em ter o copo sempre cheio, substituindo-o ou reabastecendo-o.

No geral, costuma ser mais percebida com os copos de cerveja. Porém, pode surgir com copos de diferentes bebidas alcóolicas e está relacionada ao desejo latente de continuar bebendo.


Assim, indivíduos que apresentam cenosilicafobia costumam encher o próprio copo e o dos outros compulsivamente em situações sociais ou particulares. Além de causar sintomas negativos no consumidor, esse medo irracional pode gerar danos na saúde do indivíduo.

A origem do nome vem do grego: “kenos”, que significa vazio, “silica”, associado a copo ou vidro e “phobia”, que quer dizer medo. Juntas, essas partes formam uma expressão perfeita para descrever aquela sensação estranha de desconforto ao perceber que o copo secou no meio de uma conversa animada ou de uma festa.

Sendo assim, é comum que indivíduos com essa fobia demonstrem nervosismo, irritação e agitação quando estão diante de um copo vazio. Seja em um evento social ou em um momento familiar, as ações tendem quase compulsivamente ao continuar enchendo o copo.

Ainda que não se beba mais rápido, pode-se perceber pessoas que preenchem o copo mesmo entre goles. Portanto, a ansiedade, estresse, paranoia e fixação também fazem parte dos sintomas da cenosilicafobia. Por outro lado, em casos mais graves as reações são exacerbadas. Como exemplo, nos casos em que não há mais bebida para colocar no copo, o indivíduo pode manifestar ataques de raiva e comportamento violento. Além disso, crises de pânico, náusea e tontura aparecem como consequência dos sintomas.

Comumente, a compulsão por encher o copo e não o ver vazio é um mecanismo de defesa para lutar contra o medo irracional da cenosilicafobia. Entretanto, o perigo a longo prazo na saúde física e mental mora na repetição do ato de encher o copo e beber.

No geral, ainda que seja leve ou quase imperceptível, essa fobia pode levar ao alcoolismo. Por causa do comportamento compulsivo de continuar enchendo o copo até acabar a bebida, o indivíduo cria e reforça um ciclo de dependência da bebida.

Desse modo, é essencial que familiares e amigos observem o comportamento uns dos outros no momento do consumo de bebida alcóolica. Assim, além de evitar o desenvolvimento da dependência, fica mais fácil identificar a cenosilicafobia nos estágios iniciais para efetuar o tratamento correto.

Ainda que o álcool seja uma substância lícita e muitas vezes, de cunho social, todo cuidado é pouco quando o assunto é excesso. Portanto, compreender os limites do que é saudável e sociável pode ser uma ferramenta no combate dos malefícios a longo prazo dessa fobia.

Para além da prevenção, o tratamento da cenosilicafobia é similar ao de outras fobias. Ou seja, o tratamento médico orientado para o quadro físico e mental.

Assim, recomenda-se o acompanhamento psicoterapêutico que consiga alcançar a origem dessa fobia. Desse modo, entender a raiz do problema facilita no combate das reações e erradicação do medo irracional.

Por outro lado, quando a fobia está acompanhada do alcoolismo, pode-se optar por tratamentos tradicionais contra essa dependência. Em outras palavras, pesquisar e procurar programas de reabilitação auxiliam no combate da cenosilicafobia.

No geral, o indivíduo com fobias tem dificuldade de identificar e superar o medo. Sendo assim, a atenção e acompanhamento de amigos ou familiares também são ferramentas importantes no tratamento.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Saint Patrick Day, Cerveja Verde, Duendes e Trevos






Cerveja verde, duendes e trevos de três folhas. Estes três elementos compõem as alegorias de uma das mais tradicionais festas religiosas do mundo que é a comemoração do Dia de São Patrício ou simplesmente Saint Patrick´s Day, festejado na Irlanda e em muitos outros países, as celebrações duram não apenas um dia, mas uma semana, e equivale ao carnaval brasileiro com desfiles de rua e, claro, em um país referência na produção mundial de cerveja, não seria uma festa popular se a bebida não estivesse presente e se destacar por receber a coloração verde típica do festival.

Além da Irlanda, o Dia de São Patrício também é comemorado no Reino Unido, Austrália, Estados Unidos, Argentina, Nova Zelândia, Japão, Singapura, Rússia e mesmo no Brasil. Aliás, foi nos Estados onde começou a celebração no século XIX. No entanto, nestes locais não é feriado, mas os bares e pubs costumam ficar cheios para beber em memória do Santo Patrício. A tradição manda comemorar também com trevos de três folhas, na cor verde, chamados de Shamrock, que foi usado pela Santíssima Trindade da Igreja, e com a presença de duendes ou Leprechaun, sujeitos verdes que protegem tesouros escondidos no final do arco-íris. Eis aí um bom motivo para celebrar a semana e ainda reforçar a marca da sua cerveja.

Enquanto erguia canecos e brincava com duendes, você já deve ter se perguntado como uma festa tradicional da Irlanda ficou tão popular em um país como o Brasil, certo? Há alguns anos, uma festa tradicional da ilha europeia vem ganhando os corações dos brasileiros, assim como já fez com outros países. Provavelmente você já brindou em alguma celebração desta data ou, no mínimo, já ouviu falar dela: é o Saint Patrick’s Da , ou Dia de São Patrício, em português.

São Patrício é o padroeiro da Irlanda e a data escolhida para homenageá-lo é o dia de sua morte, 17 de março de 461 d.C, de acordo com a Encyclopædia Britannica (plataforma de conhecimento do Reino Unido). A origem da data mantém certo mistério, já que os historiadores não são categóricos a respeito do nascimento (387 d.C) e da morte de São Patrício.

Há registros de celebrações em sua homenagem desde, pelo menos, o século 18. Porém, até meados do século 19 essas comemorações tinham caráter bastante religioso. Foi nesta época que o dia dedicado ao protetor da Ilha Esmeralda começou a ganhar configurações parecidas com as de hoje, mas ainda com contornos bem religiosos, quando grandes levas de irlandeses deixaram o país e emigraram rumo às Américas (parte deles para o Brasil), fugindo da Grande Fome que assolava a Irlanda.

É fato que a colônia irlandesa no Brasil não é das mais expressivas, contando com algo entre 70 mil e 75 mil descendentes de imigrantes. Mesmo assim, a comemoração já virou tradição nos bares de diversas cidades. E se você pensou que o motivo é a bebida principal da festa, acertou! Os brindes a São Patrício são regados pela cerveja na Irlanda, no Brasil e no resto do mundo.

A própria história do santo também é pouco conhecida e acredita-se que seu pai e avô foram diáconos na igreja.

De acordo com os registros históricos, Patrício não era irlandês, mas um inglês nascido em uma rica família cristã da Inglaterra Romana por volta do ano 390. Tinha fazendas, servos e uma vida nobre, mas aos 16 anos foi sequestrado por piratas irlandeses que o levaram para a ilha e o mantiveram preso, escravizado e mantido nas regiões montanhosas. Foi quando se apegou à fé para suportar seu sofrimento.

Sete anos depois ele conseguiu fugir em um navio pirata e retornar a Inglaterra, onde ingressou em um mosteiro. Mas, segundo sua lenda, por volta do ano de 432 ele teria ouvido um “chamado” de Deus para voltar a Irlanda e evangelizar os irlandeses, na época seguidores da cultura e doutrina celtas. A missão deu tão certo que Patrício se tornou o padroeiro do país e principal santo do cristianismo irlandês.

O trevo também vem da história de Patrício. Segundo o folclore da Irlanda, um dos métodos de evangelização utilizado por ele consistia em utilizar um trevo de três folhas para explicar aos irlandeses a Santíssima Trindade.

A cor verde, além do trevo, representa a própria Irlanda, que como você já percebeu é conhecida como Ilha Esmeralda. O apelido destaca o interior sempre verdejante do país, o que ocorre por conta do clima fresco e úmido na maior parte do ano.

Porém, se engana quem pensa que a comemoração é estritamente católica, a verdade é o contrário. Sempre celebrada com muita cerveja e cores verdes, o St. Patrick’s Day é repleto de símbolos os quais, em grande parte, vêm do rico e criativo folclore irlandês, bastante influenciado pela antiga cultura celta.


Nos dias de hoje, ao entrar em um bar em plena época de comemoração do Dia de São Patrício, seja onde for, provavelmente a imagem que estará na decoração será a de um pequeno duende com roupas verdes, cabelo e barba ruiva, o Leprechaun.

O Leprechaun, duende que aparece na festa e é inspiração para as fantasias não tem relação com a história de São Patrício, mas vem das origens da Irlanda. Ele pertence à mitologia celta e, segundo a lenda, os leprechauns são guardiões de tesouros (geralmente um pote de ouro), são descritos como seres alegres e estão sempre vestidos à moda antiga.

Acontece que a história acerca desse duende famoso é muito mais antiga. O Leprechaun (também chamados de leprecauns ou lepracauns) é um ser pequeno e mítico, cujas lendas são espalhadas oralmente na Irlanda há séculos. Já na Idade Média, os contos populares irlandeses escritos o descrevem como uma criatura rabugenta, solitária, mas também travessa.

De acordo com a fonte, os leprechauns são conhecidos pelas antigas lendas como duendes machos, pequenos e incrivelmente ágeis, e que geralmente guardam um pote de ouro. Eles compartilham muitas características com criaturas mais antigas da mitologia irlandesa-céltica.

Já a origem da palavra leprechaun, vem do antigo deus e herói celta irlandês Lugh. Originalmente ele era o deus do sol e da luz e, posteriormente, se tornou um grande guerreiro governante da Irlanda antiga. Mas a importância da figura de Lugh diminuiu com o passar do tempo, à medida que toda a Europa se tornava cada vez mais cristã.

Por fim, ele foi transformado em Lugh-chromain, que significa “Lugh inclinado”, pois agora habitava o mundo subterrâneo para onde todos os outros deuses foram relegados quando o povo adotou novas religiões cristãs. Assim, Lugh se tornou uma espécie de “duende” dentro da herança do folclore medieval.

No século 19, alguns escritores irlandeses resolveram resgatar antigos personagens de contos clássicos do folclore irlandês, como fez o poeta William Butler Yeats.

Ele descrevia o Leprechaun em seu livro de 1888, “Fairy and Folk Tales” (algo como “Contos de fadas e folclóricos”, em tradução livre), como uma “pequena criatura vista consertando sapatos, e quem a pega pode fazê-la entregar seus barris de ouro, pois trata-se de um ser avarento e de grande riqueza. Mas se você tirar os olhos dela, a criatura desaparece como fumaça”, como detalha um trecho da obra, descrita no site da Universidade do Kansas, nos Estados Unidos.

Yeats ainda conta que além de avarento e fugidio, o Leprechaun usava um casaco vermelho de sete botões, uma imagem bem diferente da amplamente conhecida hoje em dia, na qual é desenhado como um duende vestido de verde, alegre e que vive no final de um arco-íris, onde protege seus potes de ouro e deseja boa sorte.

O mítico duende Leprechaun ganhou roupas na cor verde porque a cor verde esmeralda é uma marca da identidade e do patrimônio do povo irlandês e está ligada ao trevo, planta que símbolo do país e, portanto, associá-la a outro personagem igualmente importante à nação se tornou algo natural e, foi no século 19, que eles alcançaram a posição dominante de símbolo mais reconhecido do folclore irlandês.

Já a imagem alegre e festiva do Leprechaun (que originalmente era descrito como rabugento) é, em grande parte, graças a Walt Disney, cuja visita à Irlanda inspirou o filme “A Lenda dos Anões Mágicos”, de 1959. Foi ele que apresentou ao mundo um duende vestido com um traje verde, colete amarelo e sapatos afivelados.

Esta e outras representações dos duendes se espalharam pelos quatro cantos, criando uma nova imagem de um ser feliz e brincalhão, perfeito para representar a Irlanda também em sua maior e mais famosa festa em todo o mundo: o St. Patrick’s Day. Porém, não há nenhuma conexão direta entre o dia de São Patrício e o duende, além do fato de ambos serem importantes símbolos da Irlanda.

Reza a lenda que essas criaturas do folclore europeu beliscam qualquer um que não esteja usando verde, a cor favorita dos duendes, no St.Patrick‘s Day.

Segundo a revista Readers Digest, uma das razões pelas quais se usa verde no Dia de São Patrício está no apelido da Irlanda, conhecida como ilha esmeralda. A faixa verde na bandeira irlandesa também está ligada à tradição: o verde representa os católicos da Irlanda, o laranja representa a população protestante e o branco no meio simboliza a paz entre as duas religiões. Assim, o verde foi adotado com a cor oficial da festa e foi muito além das fantasias.

No dia 17 de março, o Rio Chicago, nos Estados Unidos, é tingido de verde por algumas horas e monumentos no mundo inteiro, por exemplo: o Coliseu, a Torre Eiffel, a Muralha da China e o Cristo Redentor, ganham iluminação especial na cor da Irlanda.

Apesar dos irlandeses mais tradicionais torcerem o nariz para a cerveja colorida, no dia de São Patrício, no mundo inteiro, bares e pubs costumam ficar cheios para beber cerveja verde em memória ao santo.

E, como muitas tradições do Dia de São Patrício, a cerveja verde não tem origem irlandesa: é uma invenção americana.

Não havia desfiles e certamente não havia produtos alimentícios de cor esmeralda na Irlanda no século XX, quando a festa teve origem no país.

Aliás, de acordo com o portal History Channel, até os anos 70, as leis irlandesas proibiram os pubs de abrir em dias santos, como no dia 17 de março.

“A atmosfera de festa só se espalhou para a Irlanda após a chegada da televisão, quando os irlandeses puderam ver toda a diversão do outro lado do oceano”, relata o site.

A invenção da cerveja de cor esmeralda, de fato, é creditada ao americano Thomas Curtin, um médico que teria criado a receita para uma festa do Dia de São Patrício para um clube do Bronx, em 1914.

O seu ingrediente secreto era um pó azulado usado para lavar roupas (anil), em contato com a cerveja “amarela”, o líquido ficava verde. A tendência acabou se tornando bastante popular, replicada até hoje, agora com o uso de corante alimentar, felizmente.

A polêmica é que, embora a cerveja verde tenha se tornado um item básico da festa nos Estados Unidos e em vários outros lugares do mundo, a bebida nunca fez muito sucesso na Irlanda, ao contrário.

Mesmo adotando algumas tradições do Dia de São Patrício da América irlandesa, beber cerveja verde parece totalmente errado na Irlanda.

Ao menos para os irlandeses mais ortodoxos.

Como guardiões do seu produto mais típico, a cerveja, os irlandeses aparentemente não veem problemas se você colorir o mundo de verde, mas não, absolutamente, não toque na sua cerveja.



quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Bruxas ou Cervejeiras ?


Texto Carolina Fioratti - 8 mar 2021, 21h33 - Atualizado em 25 ago 2022


Como as mulheres passaram de fabricantes de cerveja a acusadas de “bruxaria”. Por muito tempo, elas foram as principais fabricantes da bebida, mas no século 16, outros comerciantes passaram a relacioná-las à bruxaria. Entenda essa história.


A cerveja é majoritariamente associada aos homens: eles estão à frente das maiores fabricantes do mundo, e também costumam ser o público-alvo dos comerciais da bebida. Mas a história nem sempre foi essa. Se hoje você pode curtir uma cerveja depois do expediente, foi porque mulheres alcançaram a forma ideal de produzir o líquido.

Os humanos têm consumido cerveja há pelo menos sete mil anos. Desde os primórdios da produção, as responsáveis por preparar a bebida eram mulheres. Nem é tão estranho se você lembrar da estrutura familiar vigente na época – enquanto os homens geralmente se encarregavam da caça, elas eram responsáveis por coletar grãos e preparar os alimentos (inclusive a cerveja).

E a tarefa perdurou. Na cultura viking e egípcia, por exemplo, elas preparavam a bebida em cerimônias religiosas ou mesmo para o consumo dentro de casa, já que a cerveja é um alimento prático e rico em calorias. Os antigos sumérios, que habitavam a região dos rios Tigres e Eufrates, tinham até mesmo uma deusa da cerveja, chamada Ninkasi.

Vamos começar pelo básico da cerveja. Se você gosta da bebida, já deve ter ouvido falar do lúpulo. Essa planta carrega substâncias que dão o aroma e o amargor à cerveja, além de inibir a proliferação de bactérias e melhorar a qualidade da espuma. A primeira pessoa a registrar o uso do ingrediente (e adicioná-lo à cerveja) foi a freira Hildegard von Bingen. A alemã escreveu sobre as propriedades do lúpulo no século 12 em seu livro intitulado Liber Subtilitatum Diversarum Naturarum Creaturarum (Livro das Propriedades ou Sutilezas   das Várias Criaturas da Natureza).

Até o século 16, a cerveja foi se tornando um alimento comum para as famílias da Europa, e a sua produção era só mais uma tarefa doméstica para as donas de casa. Viúvas e mulheres solteiras aproveitavam a habilidade com a fermentação para ganhar algum dinheiro extra nos mercados. Já as mulheres casadas podiam fazer parcerias com os maridos para administrar cervejarias.

Encontrar as mulheres cervejeiras no mercado não era difícil: elas usavam chapéus grandes e pontudos para serem reconhecidas pelos clientes; e geralmente estavam diante de grandes caldeirões, onde o líquido era produzido. Aquelas que tinham estabelecimentos próprios deixavam uma vassoura na porta para avisar que a bebida estava disponível para ser comprada. Para completar, era comum que comerciantes criassem gatos, para manter os ratos longe dos grãos.

Se você imaginou uma bruxa revirando um caldeirão alcóolico, não é à toa. Segundo a professora Laken Brooks, em um artigo para o The Conversation, é possível que parte da imagem clássica das bruxas tenha vindo das cervejeiras. Isso porque alguns comerciantes viram a oportunidade de eliminar a concorrência pegando carona na Inquisição – movimento da Igreja Católica que pretendia combater a heresia e a bruxaria.

Os cervejeiros passaram a acusar as mulheres de bruxaria, alegando que elas utilizavam os caldeirões para preparar poções mágicas ao invés do entorpecente. A acusação era grave, já que as moças tidas como bruxas não eram apenas desprezadas pela sociedade, mas também poderiam ser presas e mortas. Nem todos os homens acreditavam que elas eram de fato bruxas, é claro, mas muitos defendiam que produção e comércio de cerveja não era para as mulheres, já que o tempo investido no negócio era desviado dos cuidados de casa e dos filhos.

Com o tempo, a participação feminina no ramo caiu consideravelmente. Hoje, o cenário da produção de cervejas é contrário àquele que perdurou por milênios. Uma pesquisa feita pela Universidade de Stanford, nos EUA, mostrou que apenas 17% das artesanais têm uma mulher como CEO, sendo que apenas 4% delas contam com uma mestre-cervejeira.

O Copo Americano



texto copiado de Bruna Castro, publicado em copo americano nascido na industria virou simbolo das casas e bares do rio, em 8 de janeiro de 2026




Poucos objetos são tão discretos — e ao mesmo tempo tão onipresentes — quanto o copo americano. Ele nunca pediu atenção, nunca mudou de forma, nunca se reinventou. Ainda assim, atravessou décadas praticamente intacto, ocupando cozinhas, armários, balcões e mesas do Rio de Janeiro como se sempre tivesse pertencido à paisagem doméstica da cidade.

O copo americano não nasceu carioca, mas nasceu duma indústria brasileira que teve íntima ligação com l Rio. Criado em meados do século XX pela fábrica Nadir Figueiredo, inspirou-se em modelos simples e robustos usados nos Estados Unidos, pensados para resistir ao uso intenso. Era um copo funcional, barato, empilhável, quase indestrutível. Um produto típico de um Brasil que se industrializava e precisava de soluções práticas para o cotidiano. Mas foi no Rio – e nas suas casas e botequins – que esse copo encontrou seu lugar definitivo.

Durante décadas, a Nadir Figueiredo manteve uma importante unidade fabril na Vila da Penha, na Zona Norte da cidade. Ali, onde hoje funciona o Carioca Shopping, produziu-se em larga escala o copo que acabaria se espalhando por todo o estado — e, sobretudo, pelas casas cariocas. O complexo industrial marcou profundamente a região, integrando a história do trabalho, da urbanização e da vida cotidiana do subúrbio, tendo trabalhadores que residiam em todo o entorno, de Coelho Neto à Penha.

É curioso perceber como um objeto de origem tão industrial e produzido aos milhões acabou sendo completamente absorvido pela intimidade doméstica. Na casa da avó, o copo americano servia para tudo: água, café, suco, remédio. Era o copo “certo” para visitas rápidas e para o uso diário. Ficava no armário mais baixo, ao alcance das crianças, porque não quebrava fácil. E, quando quebrava, não fazia drama: era substituído sem cerimônia.

Nos botequins, virou medida informal. Um café era “um copinho”. Uma cerveja pequena também. O copo americano ajudou a padronizar o cotidiano sem nunca parecer impositivo. Era democrático por natureza. Não distinguia classe social, bairro ou ocasião. Estava tanto na mesa simples quanto no balcão de zinco, tanto na Zona Norte quanto no Centro.

A presença da fábrica na Vila da Penha ajudou a naturalizar ainda mais esse vínculo com o Rio. O copo não vinha “de fora”. Vinha do subúrbio. Do chão fabril carioca. De uma Zona Norte que, por muito tempo, concentrou parte importante da produção industrial da cidade. O copo americano carregava, sem saber, a memória de turnos, operários, caminhões e estoques — tudo isso dissolvido na transparência do vidro grosso.

Com o passar do tempo, a fábrica foi desativada. O espaço industrial deu lugar a um grande empreendimento comercial. A lógica da cidade mudou. A indústria saiu, o consumo entrou. Mas o copo permaneceu. Continuou firme nos armários, nas padarias, nos bares, como um vestígio silencioso de um Rio que produzia, não apenas consumia.

Talvez seja por isso que o copo americano provoque tanta nostalgia. Não apenas pelo objeto em si, mas pelo mundo que ele representa. Um tempo em que as coisas duravam. Em que a forma seguia a função. Em que um único copo resolvia quase tudo, sem precisar ser bonito, caro ou exclusivo.

O copo americano não virou símbolo por estratégia de marketing. Virou símbolo por uso. Foi adotado, repetido, transmitido. Tornou-se carioca porque entrou na rotina, no gesto automático, no dia a dia sem glamour. Como tantas outras coisas que definem o Rio, ele não nasceu identidade — virou identidade.

E talvez seja exatamente por isso que, ainda hoje, ao pegar um copo americano na mão, muita gente pense imediatamente na casa da avó. Porque ali, como em tantos outros lugares do Rio, ele não era apenas um copo. Era parte da casa. Parte da vida. Parte da história.