terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Lei Seca






A cerveja pode parecer tão americana quanto o beisebol, mas isso nem sempre foi verdade: as destiladas, o rum e o uísque, eram as bebidas preferidas na década de 1840, as fermentadas apenas algumas cervejarias. Quando uma onda de imigrantes alemães chegou em meados do século XIX, eles prontamente começaram a recriar os prazeres do biergartens que tinham deixado para trás.

Apenas cinquenta anos depois, a cerveja lager de estilo americano que eles inventaram era a bebida mais popular do país. A fabricação de cerveja era a quinta maior indústria do país, governado pelos titãs fabulosamente ricos Frederick Pabst e Adolphus Busch. Mas quando os sentimentos antialemães despertados pela Primeira Guerra Mundial alimentaram as chamas do movimento de temperança, um dos ativistas chegou a declarar que “o pior de todos os nossos inimigos alemães são Pabst, Schlitz, Blatz, e Miller,” a Lei Seca foi o resultado.

Após a década de 1850, à medida em que os movimentos pró-temperança ou antialcoólicos foram ganhando força, a Woman’s Christian Temperance Union (União Cristã de Temperança Feminina – WCTU) se tornou a maior organização de mulheres do seu tempo, chegando a ter mais de 345 mil membros.


É no campo da ação confrontacional direta que encontramos a personagem mais famosa da WCTU: Caroline Amelia Nation ou Carrie Nation, como era mais conhecida. A morte do seu marido devido ao alcoolismo em 1869, a levou a um ativismo apaixonado contra a venda de álcool. Chegando a dirigir a filial local da WCTU na cidade de Medicine Lodge, no estado do Kansas.

A princípio, ela fazia protestos pacíficos em bares, cantando hinos religiosos sozinha ou acompanhada de outras mulheres. Insatisfeita com os resultados, passou a adotar métodos mais violentos. Em 7 de junho de 1900 destruiu a pedradas o estoque de bebidas de um saloon. Repetindo o ato nos meses seguintes, em saloons por todo o Kansas. Até que um dia o seu segundo marido falou em tom de brincadeira que ela deveria usar uma machadinha para causar mais dano. A resposta de Nation foi simplesmente: “Essa é a coisa mais sensata que você disse desde que me casei com você.”

Passou a invadir os estabelecimentos armada de uma machadinha para quebrar acessórios e o estoque de bebidas. O que lhe valeu o apelido de Hatchet Granny (Vovó Machadinha). Entre 1900 e 1910, Nation foi presa mais de 32 vezes por ação violenta e dano criminoso.

O Nobre Experimento ou a Lei Seca, ou ainda, a 18ª Emenda, entrou em vigor em 17 de janeiro de 1920, juntamente com a Lei Volstead que a regulamentava (batizada em homenagem ao congressista proibicionista Andrew Volstead) e definindo bebidas alcoólicas como todas aquelas com mais de 0,5% ABV, proibindo a fabricação, venda ou transporte de licores embriagantes dentro dos Estados Unidos e de todos os territórios submetidos à sua jurisdição, bem como a sua importação para os mesmos:
“Nenhuma pessoa deverá, na data ou após a data em que a décima oitava emenda à Constituição dos Estados Unidos entrar em vigor, fabricar, vender, trocar, transportar, importar, exportar, entregar, fornecer ou possuir qualquer bebida alcoólica, exceto conforme autorizado nesta Lei, e todas as disposições desta devem ser liberalmente interpretadas para o fim de que o uso de bebida alcoólica como bebida possa ser evitado”.


A lei seca, que vigorou nos Estados Unidos de 1920 até 1933 tirou do mercado muitas cervejarias. Das mais de 1.300 cervejarias em operação em 1915, não mais do que 100 sobreviveram. Já pensou se o produto ou serviço de sua empresa fosse proibido da noite para o dia? O que as poucas empresas que sobreviveram a essa lei fizeram?

No início da Lei Seca, muitas cervejarias optaram por fazer cervejas sem álcool. Mas o mercado americano não aceitou bem essa inovação. Os consumidores queriam cerveja de verdade. E quando a proliferação de contrabandistas e bares clandestinos tornou fácil o acesso a cervejas verdadeiras, o mercado de cerveja sem álcool afundou. Por outro lado, muitas cervejarias esperavam que a Lei Seca durasse pouco tempo. Mas a vigência da lei durou 13 anos. Quem ficou esperando a lei ser extinta para agir simplesmente foi extinto.

Os bares clandestinos, escondidos e com acesso restrito eram conhecidos por “speakeasy”, algo como “fale baixo”, já que naquele tempo não era permitido aos estabelecimentos a venda de bebidas alcoólicas.

A Anheuser-Busch vendeu metade de seus ativos imobiliários e lançou mais de 25 produtos sem álcool para poder sobreviver. Isso incluía produtos infantis, ovos congelados e produtos de café e chá carbonatados.

Durante a vigência da Lei Seca, a cervejaria Coors também investiu em um laboratório de cerâmica e olaria que havia adquirido alguns anos antes. A Coors Porcelain Company aproveitou a argila do Estado do Colorado para fazer de louças a velas de ignição, passando por utensílios de laboratório. Essa empresa de porcelana hoje é conhecida como CoorsTek. Ela é hoje a maior empresa de cerâmicas de engenharia do mundo.

A Miller Brewing Company conseguiu sobreviver em grande parte devido aos seus investimentos em participações imobiliárias. Antes da Lei Seca, a Miller possuía bares nos quais distribuía sua cerveja. A empresa vendeu alguns desses imóveis lucrou com seus investimentos em títulos municipais e internacionais, empréstimos hipotecários e títulos do governo para poder sobreviver.

A Pabst Brewing Company sobreviveu vendendo xarope de malte, comprando uma empresa de refrigerantes e alugando parte de seu espaço de fábrica para a Harley-Davidson, fabricante de motocicletas. A cervejaria também diversificou seu portfólio de produtos. Passou a fabricar pasta de queijo que era envelhecida nas adegas de gelo da cervejaria. Após a revogação da Lei Seca, a Pabst vendeu a linha de queijos para a Kraft.

A D.G. Yuengling & Son sobreviveu por meio da produção de cerveja sem álcool e sorvetes. Logo após a promulgação da Lei Seca, a empresa abriu uma leiteria e começou a fazer sorvetes que eram armazenados em suas instalações de refrigeração.

É obvio que, quando a lei seca foi banida em 1933, as cervejarias que sobreviveram encontraram pouca concorrência no mercado norte americano. E isso as fez prosperar.

Todas essas empresas sobreviveram porque foram capazes de selecionar os projetos certos e de desenvolvê-los a tempo. As empresas que desapareceram não fizeram isso.

Durante o século XIX e o início do século XX, o movimento da temperança se tornou proeminente em muitos países, particularmente nos de língua inglesa, escandinavos e protestantes majoritários, e eventualmente levou a proibições nacionais no Canadá (1918 a 1920), Noruega (somente bebidas destiladas de 1919 a 1926), Bélgica (1919), Finlândia (1919 a 1932), bem como proibições provinciais como na Índia (1948 até o presente).

Movimentos “pró-temperança” existiram também no Brasil, nessa mesma época. Mas, como explica Teresa Cristina de Novaes Marques, No Brasil, esses movimentos tinham um forte caráter elitista, vinculando alcoolismo a pobreza, elegendo como alvo principal as classes populares e o seu hábito de beber cachaça. Como você já pode imaginar, essa condenação afetava particularmente a população negra.

A cerveja, por sua vez, gerava controvérsias. De um lado, os seus defensores argumentavam que ela passava por rígidos mecanismos de controle na sua produção e tinha qualidades alimentares e até mesmo medicinais.

Um detalhe importante é que essa argumentação se restringia às cervejas de baixa fermentação (“industriais”). Não incluindo as cervejas de alta fermentação (ditas “artesanais”). Os defensores da proibição total, por outro lado, argumentavam que a cerveja podia ser a porta de entrada para o consumo de bebidas mais fortes, que levariam à dependência irreversível. E condenavam a associação entre cerveja e alimento.

Porém, diante do perigo representado pelo consumo de bebidas destiladas de maior teor alcoólico, como a cachaça, pelas classes populares, a cerveja acabou sendo vista como um mal menor. Dessa forma, ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, aqui os movimentos pró-temperança podem ter colaborado para fazer da cerveja a bebida preferida dos brasileiros.

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