
Cerveja verde, duendes e trevos de três folhas. Estes três elementos compõem as alegorias de uma das mais tradicionais festas religiosas do mundo que é a comemoração do Dia de São Patrício ou simplesmente Saint Patrick´s Day, festejado na Irlanda e em muitos outros países, as celebrações duram não apenas um dia, mas uma semana, e equivale ao carnaval brasileiro com desfiles de rua e, claro, em um país referência na produção mundial de cerveja, não seria uma festa popular se a bebida não estivesse presente e se destacar por receber a coloração verde típica do festival.
Além da Irlanda, o Dia de São Patrício também é comemorado no Reino Unido, Austrália, Estados Unidos, Argentina, Nova Zelândia, Japão, Singapura, Rússia e mesmo no Brasil. Aliás, foi nos Estados onde começou a celebração no século XIX. No entanto, nestes locais não é feriado, mas os bares e pubs costumam ficar cheios para beber em memória do Santo Patrício. A tradição manda comemorar também com trevos de três folhas, na cor verde, chamados de Shamrock, que foi usado pela Santíssima Trindade da Igreja, e com a presença de duendes ou Leprechaun, sujeitos verdes que protegem tesouros escondidos no final do arco-íris. Eis aí um bom motivo para celebrar a semana e ainda reforçar a marca da sua cerveja.
Enquanto erguia canecos e brincava com duendes, você já deve ter se perguntado como uma festa tradicional da Irlanda ficou tão popular em um país como o Brasil, certo? Há alguns anos, uma festa tradicional da ilha europeia vem ganhando os corações dos brasileiros, assim como já fez com outros países. Provavelmente você já brindou em alguma celebração desta data ou, no mínimo, já ouviu falar dela: é o Saint Patrick’s Da , ou Dia de São Patrício, em português.
São Patrício é o padroeiro da Irlanda e a data escolhida para homenageá-lo é o dia de sua morte, 17 de março de 461 d.C, de acordo com a Encyclopædia Britannica (plataforma de conhecimento do Reino Unido). A origem da data mantém certo mistério, já que os historiadores não são categóricos a respeito do nascimento (387 d.C) e da morte de São Patrício.
Há registros de celebrações em sua homenagem desde, pelo menos, o século 18. Porém, até meados do século 19 essas comemorações tinham caráter bastante religioso. Foi nesta época que o dia dedicado ao protetor da Ilha Esmeralda começou a ganhar configurações parecidas com as de hoje, mas ainda com contornos bem religiosos, quando grandes levas de irlandeses deixaram o país e emigraram rumo às Américas (parte deles para o Brasil), fugindo da Grande Fome que assolava a Irlanda.
É fato que a colônia irlandesa no Brasil não é das mais expressivas, contando com algo entre 70 mil e 75 mil descendentes de imigrantes. Mesmo assim, a comemoração já virou tradição nos bares de diversas cidades. E se você pensou que o motivo é a bebida principal da festa, acertou! Os brindes a São Patrício são regados pela cerveja na Irlanda, no Brasil e no resto do mundo.
A própria história do santo também é pouco conhecida e acredita-se que seu pai e avô foram diáconos na igreja.
De acordo com os registros históricos, Patrício não era irlandês, mas um inglês nascido em uma rica família cristã da Inglaterra Romana por volta do ano 390. Tinha fazendas, servos e uma vida nobre, mas aos 16 anos foi sequestrado por piratas irlandeses que o levaram para a ilha e o mantiveram preso, escravizado e mantido nas regiões montanhosas. Foi quando se apegou à fé para suportar seu sofrimento.
Sete anos depois ele conseguiu fugir em um navio pirata e retornar a Inglaterra, onde ingressou em um mosteiro. Mas, segundo sua lenda, por volta do ano de 432 ele teria ouvido um “chamado” de Deus para voltar a Irlanda e evangelizar os irlandeses, na época seguidores da cultura e doutrina celtas. A missão deu tão certo que Patrício se tornou o padroeiro do país e principal santo do cristianismo irlandês.
O trevo também vem da história de Patrício. Segundo o folclore da Irlanda, um dos métodos de evangelização utilizado por ele consistia em utilizar um trevo de três folhas para explicar aos irlandeses a Santíssima Trindade.
A cor verde, além do trevo, representa a própria Irlanda, que como você já percebeu é conhecida como Ilha Esmeralda. O apelido destaca o interior sempre verdejante do país, o que ocorre por conta do clima fresco e úmido na maior parte do ano.
Porém, se engana quem pensa que a comemoração é estritamente católica, a verdade é o contrário. Sempre celebrada com muita cerveja e cores verdes, o St. Patrick’s Day é repleto de símbolos os quais, em grande parte, vêm do rico e criativo folclore irlandês, bastante influenciado pela antiga cultura celta.

Nos dias de hoje, ao entrar em um bar em plena época de comemoração do Dia de São Patrício, seja onde for, provavelmente a imagem que estará na decoração será a de um pequeno duende com roupas verdes, cabelo e barba ruiva, o Leprechaun.
O Leprechaun, duende que aparece na festa e é inspiração para as fantasias não tem relação com a história de São Patrício, mas vem das origens da Irlanda. Ele pertence à mitologia celta e, segundo a lenda, os leprechauns são guardiões de tesouros (geralmente um pote de ouro), são descritos como seres alegres e estão sempre vestidos à moda antiga.
Acontece que a história acerca desse duende famoso é muito mais antiga. O Leprechaun (também chamados de leprecauns ou lepracauns) é um ser pequeno e mítico, cujas lendas são espalhadas oralmente na Irlanda há séculos. Já na Idade Média, os contos populares irlandeses escritos o descrevem como uma criatura rabugenta, solitária, mas também travessa.
De acordo com a fonte, os leprechauns são conhecidos pelas antigas lendas como duendes machos, pequenos e incrivelmente ágeis, e que geralmente guardam um pote de ouro. Eles compartilham muitas características com criaturas mais antigas da mitologia irlandesa-céltica.
Já a origem da palavra leprechaun, vem do antigo deus e herói celta irlandês Lugh. Originalmente ele era o deus do sol e da luz e, posteriormente, se tornou um grande guerreiro governante da Irlanda antiga. Mas a importância da figura de Lugh diminuiu com o passar do tempo, à medida que toda a Europa se tornava cada vez mais cristã.
Por fim, ele foi transformado em Lugh-chromain, que significa “Lugh inclinado”, pois agora habitava o mundo subterrâneo para onde todos os outros deuses foram relegados quando o povo adotou novas religiões cristãs. Assim, Lugh se tornou uma espécie de “duende” dentro da herança do folclore medieval.
No século 19, alguns escritores irlandeses resolveram resgatar antigos personagens de contos clássicos do folclore irlandês, como fez o poeta William Butler Yeats.
Ele descrevia o Leprechaun em seu livro de 1888, “Fairy and Folk Tales” (algo como “Contos de fadas e folclóricos”, em tradução livre), como uma “pequena criatura vista consertando sapatos, e quem a pega pode fazê-la entregar seus barris de ouro, pois trata-se de um ser avarento e de grande riqueza. Mas se você tirar os olhos dela, a criatura desaparece como fumaça”, como detalha um trecho da obra, descrita no site da Universidade do Kansas, nos Estados Unidos.
Yeats ainda conta que além de avarento e fugidio, o Leprechaun usava um casaco vermelho de sete botões, uma imagem bem diferente da amplamente conhecida hoje em dia, na qual é desenhado como um duende vestido de verde, alegre e que vive no final de um arco-íris, onde protege seus potes de ouro e deseja boa sorte.
O mítico duende Leprechaun ganhou roupas na cor verde porque a cor verde esmeralda é uma marca da identidade e do patrimônio do povo irlandês e está ligada ao trevo, planta que símbolo do país e, portanto, associá-la a outro personagem igualmente importante à nação se tornou algo natural e, foi no século 19, que eles alcançaram a posição dominante de símbolo mais reconhecido do folclore irlandês.
Já a imagem alegre e festiva do Leprechaun (que originalmente era descrito como rabugento) é, em grande parte, graças a Walt Disney, cuja visita à Irlanda inspirou o filme “A Lenda dos Anões Mágicos”, de 1959. Foi ele que apresentou ao mundo um duende vestido com um traje verde, colete amarelo e sapatos afivelados.
Esta e outras representações dos duendes se espalharam pelos quatro cantos, criando uma nova imagem de um ser feliz e brincalhão, perfeito para representar a Irlanda também em sua maior e mais famosa festa em todo o mundo: o St. Patrick’s Day. Porém, não há nenhuma conexão direta entre o dia de São Patrício e o duende, além do fato de ambos serem importantes símbolos da Irlanda.
Reza a lenda que essas criaturas do folclore europeu beliscam qualquer um que não esteja usando verde, a cor favorita dos duendes, no St.Patrick‘s Day.
Segundo a revista Readers Digest, uma das razões pelas quais se usa verde no Dia de São Patrício está no apelido da Irlanda, conhecida como ilha esmeralda. A faixa verde na bandeira irlandesa também está ligada à tradição: o verde representa os católicos da Irlanda, o laranja representa a população protestante e o branco no meio simboliza a paz entre as duas religiões. Assim, o verde foi adotado com a cor oficial da festa e foi muito além das fantasias.
No dia 17 de março, o Rio Chicago, nos Estados Unidos, é tingido de verde por algumas horas e monumentos no mundo inteiro, por exemplo: o Coliseu, a Torre Eiffel, a Muralha da China e o Cristo Redentor, ganham iluminação especial na cor da Irlanda.
Apesar dos irlandeses mais tradicionais torcerem o nariz para a cerveja colorida, no dia de São Patrício, no mundo inteiro, bares e pubs costumam ficar cheios para beber cerveja verde em memória ao santo.
E, como muitas tradições do Dia de São Patrício, a cerveja verde não tem origem irlandesa: é uma invenção americana.
Não havia desfiles e certamente não havia produtos alimentícios de cor esmeralda na Irlanda no século XX, quando a festa teve origem no país.
Aliás, de acordo com o portal History Channel, até os anos 70, as leis irlandesas proibiram os pubs de abrir em dias santos, como no dia 17 de março.
“A atmosfera de festa só se espalhou para a Irlanda após a chegada da televisão, quando os irlandeses puderam ver toda a diversão do outro lado do oceano”, relata o site.
A invenção da cerveja de cor esmeralda, de fato, é creditada ao americano Thomas Curtin, um médico que teria criado a receita para uma festa do Dia de São Patrício para um clube do Bronx, em 1914.
O seu ingrediente secreto era um pó azulado usado para lavar roupas (anil), em contato com a cerveja “amarela”, o líquido ficava verde. A tendência acabou se tornando bastante popular, replicada até hoje, agora com o uso de corante alimentar, felizmente.
A polêmica é que, embora a cerveja verde tenha se tornado um item básico da festa nos Estados Unidos e em vários outros lugares do mundo, a bebida nunca fez muito sucesso na Irlanda, ao contrário.
Mesmo adotando algumas tradições do Dia de São Patrício da América irlandesa, beber cerveja verde parece totalmente errado na Irlanda.
Ao menos para os irlandeses mais ortodoxos.
Como guardiões do seu produto mais típico, a cerveja, os irlandeses aparentemente não veem problemas se você colorir o mundo de verde, mas não, absolutamente, não toque na sua cerveja.
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